Tempos imperfeitos

I
Chovia.
Um escuro ensurdecedor tomava o dia
Como se fosse notas de uma música
Desconhecida, oferecida a um modesto casal
De uma cidadezinha qualquer.
Dias longos são esses em que me deito na cama
A ler um livro também qualquer
Que nada de mais acrescentará em minha vida.
Dias em que vejo a noite quebrar o silêncio
De seu antecedente de maneira sutil,
Mas árdua.

II
Passava longe daquelas luzes todas,
Mas tocava cinco vezes por semana seus semblantes.
Diante disso, pensei então em casar-me com elas,
Porém no meu lugar bigamia era crime.
Tive a ideia de mudar-me.
Não tinha como, pois me encontrava
Completamente entregue ao tempo.
Continuei observando, sempre vigiada
Por esses que nunca me deixavam,
E só por eles eu me abria inteira.
O tempo e o lugar entravam em mim
A toda hora, não me largavam nunca.
Certo! No fundo eu os queria,
Mas somente no fundo!

III
Um dia, tonta pela burocracia de meus passos,
Enxerguei algo que nunca teve existência
Interessante para mim.
Era o verde.
Até hoje acredito na ideia de que o tempo
Teria me abandonado quando o vi pela primeira vez;
E, sem ele, senti-me dois metros e meio acima do chão.
Nesse dia assisti a longos espetáculos de dança
Daqueles que a cada ato caem sete lágrimas
De seus olhos e nada se tem a dizer.
Foi surpreendente.
Todos aplaudiam, gritavam, pediam bis;
Então, a dança recomeçava e mais sete lágrimas caiam,
E mais silêncios se ouviam.
O mundo parecia incrivelmente grande, único no universo.
Raios de luzes saiam dos olhos de quem conhecia o verde.
Em um instante o senti entrar-me
E tudo se tornava eu novamente.
Passei dias sem chorar.
O lugar sempre a recepcionar o tempo.
Um sempre a precisar do outro.
Sempre – já fui apresentada a ele.
Aparentemente encantador.

IV
Eu tornava-me uma simples flexão a indicar passado.
Essa era minha colocação no lugar.
Uma simples flexão de passado.
Eu era bem mais feliz tempos atrás,
Mais ativa, atenta aos movimentos.
Eu chorava mais, cantava e gritava chamando a felicidade.
Eu era uma folha buscando a terra,
Até que a encontrei.
O que era água em mim virou terra depois disso.
Fiquei leve,
A secura deixava-me leve.

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Um dito qualquer

Quando o amor chegou?
Não me lembro bem.
Sei apenas que havia manhãs cinzas
Iguais àquelas que preparam a cama ao inverno.

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A saia

Girava. Não se sabe ao certo se a saia ou o menino. E como um ébrio escorregadio, caía. Havia mais meninos. Certamente, havia. Mas nenhum girava saia com tamanha desenvoltura. Alguns corriam em meio à rua. Levavam os corpos de encontro ao chão. Lavavam as janelas de carros vadios, e as almas de homens vadios, com suores e encantos de meninos, assim como o tédio, tardios. Das outras – janelas – escutavam-se risos parcos. Sons concisos, entretanto, parcos. E assim eram todas as almas daqueles que riam. Vadios. Vadias almas parcas. Prostituta alma tenra. Amena, comedida alma tenra. Eram almas assim frias e inóspitas. Almas que precisavam alimento. Almas famintas de outras almas. Almas. Vadias almas. E era inóspito o lugar, não só as almas. Embora o lugar fosse feito de almas, dessas almas. Tardias, arredias, vadias, vadias. Vadias almas. E os corpos, longe de suas almas, pareciam acumular inúmeras calmas. Arrumavam as camas de quando em vez. Verdadeiramente, havia a calma. E a alma. Sim. “A alma”, disse a menina, “é provada cientificamente”. Não é hora de alma. Não. É calma. Calma a cara. E o rosto, lá no olho, mostra a calma. A calma, talvez, da alma. Que insiste em sair do corpo. Que insiste em provar a vida, aquela fora do corpo. A vida com alma. Apenas a alma. Calma! É vida sim que tem a alma, mas sem o corpo. Tudo vive sem o corpo. Principalmente, a alma. E, se não fosse o corpo, como ela estaria? Larga? Amarga? Sem saber que por si resguarda? Não. Confusa é a alma, e a calma. Ave Maria cheia de graça. Graça tenha a parca alma!

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